Elasticidades da Atividade Econômica e do Câmbio Real nas Exportações Portuárias Brasileiras

 Este working paper analisa a sensibilidade do valor FOB mensal exportado por 16 instalações portuárias brasileiras às variações da atividade econômica e da taxa de câmbio real entre janeiro de 2018 e dezembro de 2023. A pesquisa utiliza um painel equilibrado com 1.152 observações, composto por 16 instalações acompanhadas durante 72 meses. Por meio de um modelo econométrico de efeitos fixos com especificação log-log, o estudo estima elasticidades globais e examina as diferenças existentes entre os portos e terminais brasileiros.

O estudo detalha:

  • O Objetivo da Pesquisa: Uma análise da relação entre o valor FOB exportado pelas principais instalações portuárias brasileiras, o nível de atividade econômica e a taxa de câmbio real. O trabalho busca identificar tanto o comportamento médio nacional quanto as diferenças existentes entre portos e terminais.
  • A Abrangência da Amostra: A base de dados compreende o período de janeiro de 2018 a dezembro de 2023, totalizando 72 meses. Foram analisadas 16 instalações portuárias, formando um painel equilibrado com 1.152 observações.
  • As Instalações Portuárias Analisadas: O estudo inclui Rio Grande, Imbituba, Salvador/Aratu, Santos, Tubarão/Vitória, Pecém, Paranaguá, Ilhéus, Santarém, Itaqui/São Luís, Suape, Porto Velho, Itajaí/Navegantes, Itaguaí/Sepetiba, Belém/Barcarena e Manaus.
  • A Variável de Exportação: As exportações são representadas pelo valor FOB mensal, em dólares dos Estados Unidos, registrado para cada instalação portuária. Os dados foram obtidos no Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, considerando a via marítima e a Unidade da Receita Federal responsável pelo embarque.
  • O Indicador de Atividade Econômica: A atividade econômica brasileira é representada pelo Índice de Atividade Econômica do Banco Central, o IBC-Br, utilizado em frequência mensal para acompanhar as variações do nível de produção e da dinâmica econômica nacional.
  • A Construção da Taxa de Câmbio Real: A taxa de câmbio real bilateral entre o real e o dólar foi construída a partir da PTAX média mensal, do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, o IPCA, e do índice de preços ao consumidor dos Estados Unidos, o CPI. Pela convenção utilizada, uma elevação do índice representa uma desvalorização real da moeda brasileira.
  • O Conceito de Elasticidade: A elasticidade mede a variação percentual de uma variável em resposta à variação percentual de outra. Como o modelo utiliza uma especificação log-log, os coeficientes estimados podem ser interpretados diretamente como elasticidades.
  • O Modelo Econométrico Global: O estudo utiliza o estimador Within de efeitos fixos individuais. Esse método controla características permanentes de cada instalação portuária, permitindo que os coeficientes sejam identificados a partir das variações ocorridas dentro de cada unidade ao longo do período analisado.
  • A Elasticidade em Relação à Atividade Econômica: A elasticidade global estimada para a atividade econômica foi de aproximadamente 0,2289. Isso significa que, mantido o câmbio real constante, um aumento de 1% na atividade econômica esteve associado, em média, a uma elevação de aproximadamente 0,23% no valor FOB exportado.
  • A Elasticidade em Relação ao Câmbio Real: A elasticidade global estimada para o câmbio real foi de aproximadamente 0,2399. Mantida a atividade econômica constante, uma desvalorização real de 1% esteve associada, em média, a um aumento de aproximadamente 0,24% no valor FOB exportado.
  • A Caracterização das Respostas Globais: As duas elasticidades globais são positivas e inferiores à unidade. Portanto, tanto a resposta à atividade econômica quanto a resposta ao câmbio real são classificadas como inelásticas, indicando variações menos que proporcionais no valor exportado.
  • A Inferência com Erros-Padrão de Driscoll-Kraay: Como os diagnósticos identificaram autocorrelação serial e existe a possibilidade de dependência entre as instalações, o estudo utiliza erros-padrão robustos de Driscoll-Kraay. Com essa correção, os coeficientes da atividade econômica e do câmbio real apresentaram p-valores inferiores a 0,001, sendo estatisticamente significantes ao nível de 1%.
  • A Validação dos Efeitos Fixos: O teste F de efeitos individuais apresentou resultado de aproximadamente 9.243,7 e p-valor inferior a 2,2 × 10−16. O resultado rejeita o modelo com intercepto comum e confirma a relevância das características específicas de cada instalação portuária.
  • O Diagnóstico de Heterocedasticidade: O teste de Breusch-Pagan studentizado apresentou p-valor de aproximadamente 0,9955. Dessa forma, não foi encontrada evidência estatística de heterocedasticidade ao nível de significância de 5%.
  • A Autocorrelação Serial: O estudo identificou autocorrelação nos resíduos do modelo. A correção de Driscoll-Kraay não modifica os coeficientes estimados, mas produz erros-padrão e testes de significância mais adequados diante da dependência temporal e transversal.
  • A Heterogeneidade entre as Instalações: As elasticidades específicas apresentaram elevada dispersão. Para a atividade econômica, os coeficientes variaram de aproximadamente −1,2944 em Manaus a 2,0973 em Rio Grande. Para o câmbio real, variaram de aproximadamente −1,0955 em Santarém a 1,5884 em Imbituba.
  • Os Destaques de Rio Grande e Imbituba: Rio Grande apresentou elasticidade de aproximadamente 2,0973 para a atividade econômica e 1,2848 para o câmbio real. Imbituba registrou elasticidades de aproximadamente 1,9869 e 1,5884, respectivamente. As duas instalações formam o principal núcleo de elevada sensibilidade positiva nos dois indicadores.
  • O Comportamento do Porto de Santos: Santos apresentou elasticidade positiva de aproximadamente 1,1750 em relação à atividade econômica, mas elasticidade cambial próxima de zero, de aproximadamente 0,0151. O resultado sugere forte associação com o nível de atividade e pouca resposta contemporânea às variações do câmbio real durante o período.
  • As Respostas Positivas à Atividade e ao Câmbio: Rio Grande, Imbituba, Santos, Pecém e Ilhéus foram classificados no quadrante em que tanto o crescimento da atividade econômica quanto a desvalorização real estiveram associados a aumentos do valor exportado.
  • As Respostas Positivas à Atividade e Negativas ao Câmbio: Salvador/Aratu, Tubarão/Vitória, Paranaguá e Santarém apresentaram elasticidade positiva em relação à atividade econômica e negativa em relação ao câmbio real. Esse padrão demanda uma análise mais detalhada da pauta exportadora, dos preços internacionais, dos contratos e das defasagens.
  • As Respostas Negativas à Atividade e Positivas ao Câmbio: Suape, Itaguaí/Sepetiba, Belém/Barcarena e Manaus apresentaram associação negativa com a atividade econômica e positiva com a desvalorização cambial. O resultado pode estar relacionado à maior influência da demanda externa e às características dos produtos exportados por essas instalações.
  • As Respostas Negativas nos Dois Indicadores: Itaqui/São Luís, Porto Velho e Itajaí/Navegantes apresentaram elasticidades negativas tanto para a atividade econômica quanto para o câmbio real. O estudo recomenda a investigação de choques locais, mudanças na pauta e estabilidade dos coeficientes.
  • A Baixa Correlação entre as Elasticidades: A correlação simples entre as elasticidades específicas de atividade econômica e de câmbio real foi de aproximadamente 0,13. Isso indica que a sensibilidade de uma instalação à atividade econômica não permite antecipar, de forma consistente, sua resposta às variações cambiais.
  • A Distribuição Espacial dos Resultados: Os mapas apresentados no estudo mostram que instalações localizadas na mesma região podem apresentar comportamentos muito diferentes. No Sul, por exemplo, Rio Grande e Imbituba possuem respostas positivas elevadas, enquanto Itajaí/Navegantes apresenta coeficientes negativos.
  • A Interpretação dos Coeficientes Negativos: Elasticidades negativas não representam automaticamente perda de competitividade. Elas indicam uma associação inversa durante o período analisado e podem refletir preços internacionais, contratos fixados antecipadamente, conteúdo importado, demanda interna, sazonalidade, defasagens e mudanças na composição das cargas.
  • A Importância da Composição da Pauta: As diferenças entre as instalações podem estar relacionadas à especialização produtiva, aos tipos de carga movimentados, às regiões de origem das mercadorias, aos mercados de destino, aos contratos comerciais e à infraestrutura logística disponível.
  • O Papel da Hinterlândia: A hinterlândia corresponde à área de influência de cada porto, abrangendo as regiões de origem das cargas e as redes rodoviárias, ferroviárias, hidroviárias e dutoviárias que conectam a produção às instalações portuárias. Diferenças na hinterlândia ajudam a explicar por que portos distintos apresentam elasticidades diferentes.
  • A Diferença entre Valor e Volume Exportado: A variável dependente utilizada é o valor FOB em dólares, e não o volume físico embarcado. Portanto, uma variação no valor exportado pode resultar tanto de mudanças na quantidade comercializada quanto de oscilações nos preços internacionais.
  • A Influência dos Preços Internacionais: Produtos como soja, petróleo e minério de ferro possuem participação elevada na pauta exportadora brasileira. As oscilações internacionais de preços dessas mercadorias podem exercer forte influência sobre o valor FOB registrado pelas instalações portuárias.
  • Os Choques do Período Analisado: A amostra inclui a pandemia de Covid-19, disrupções nas cadeias logísticas e períodos de elevada volatilidade dos preços das commodities e do câmbio. Esses acontecimentos podem ter afetado a estabilidade e a magnitude dos coeficientes estimados.
  • O Limite dos Rankings por Instalação: As regressões individuais utilizadas para construir o ranking dos portos apresentam apenas estimativas pontuais. Como a saída consolidada não contém erros-padrão, p-valores ou intervalos de confiança, as posições devem ser interpretadas de maneira descritiva, e não como diferenças estatisticamente comprovadas.
  • As Aplicações para o Planejamento Portuário: As elasticidades podem auxiliar na construção de cenários de demanda e na avaliação de riscos macroeconômicos. Entretanto, não devem substituir informações sobre capacidade instalada, produtividade, ocupação dos terminais, tipos de carga, carteira de projetos e limitações operacionais.
  • As Principais Conclusões: O estudo conclui que a atividade econômica e a desvalorização cambial real estiveram positivamente associadas ao valor FOB exportado no modelo global. Contudo, a elevada heterogeneidade entre as instalações impede a aplicação automática das médias nacionais a cada porto ou terminal.
  • A Agenda para Novas Pesquisas: O trabalho recomenda incorporar informações sobre produtos exportados, países de destino, preços internacionais, sazonalidade, defasagens, contratos, capacidade operacional e infraestrutura. Também é sugerida a reestimação de um modelo conjunto com interações por instalação e inferência robusta específica para cada porto.

Palavras-chave: Exportações. Portos. Elasticidade. Câmbio real. Atividade econômica. Dados em painel. Driscoll-Kraay.

Mario Antonio Margarido [1]

[1] Doutor em Economia Aplicada. Senior Partner e Líder de Econometria da Pezco Economics e pesquisador do PSP Hub Estudos em Infraestrutura e Urbanismo. E-mail: mario.margarido@pezco.com.br

 

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