Este working paper analisa a sazonalidade, as tendências de longo prazo e os ciclos dos índices pluviométricos nas cinco regiões brasileiras. As médias anuais abrangem o período de 2003 a 2024, enquanto as decomposições mensais e a identificação das fases ascendentes e descendentes se estendem até maio de 2025. Com dados do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), o estudo compara os diferentes regimes de chuva do Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul e discute suas implicações para a agricultura, os recursos hídricos, a geração de energia, a infraestrutura e a conservação ambiental.
O estudo detalha:
- A Análise Regional dos Índices Pluviométricos: Uma comparação dos padrões de precipitação das cinco regiões brasileiras, reconhecendo que a extensão territorial do país impede a definição de um único regime pluviométrico nacional. Os resultados mostram diferenças importantes na distribuição mensal das chuvas, na intensidade da sazonalidade, nas tendências anuais e na duração dos movimentos ascendentes e descendentes.
- A Base de Dados Meteorológicos: O estudo utiliza dados mensais do Banco de Dados Meteorológicos para Ensino e Pesquisa do Instituto Nacional de Meteorologia (BDMEP/INMET), fonte oficial de observações meteorológicas no Brasil. As médias anuais compreendem janeiro de 2003 a dezembro de 2024, totalizando 22 anos completos, enquanto as análises mensais de tendência e ciclos alcançam maio de 2025.
- A Interpretação das Médias Regionais: As séries são expressas em milímetros e representam valores consolidados por macrorregião. Nos gráficos anuais, cada valor corresponde à média mensal observada dentro do respectivo ano após o ajuste sazonal, não devendo ser interpretado como precipitação anual acumulada. A agregação regional permite comparações nacionais, mas pode suavizar diferenças existentes entre estados, municípios, bacias hidrográficas, biomas e estações meteorológicas.
- O Ajuste Sazonal pelo X-13-ARIMA-SEATS: Uma aplicação do procedimento X-13-ARIMA-SEATS para separar os componentes sazonal, irregular e de tendência-ciclo das séries mensais. O método permite retirar os movimentos que se repetem em determinados meses do ano e tornar mais clara a comparação da trajetória da precipitação entre diferentes períodos.
- O Coeficiente de Amplitude Sazonal: O estudo utiliza o Coeficiente de Amplitude Sazonal (CAS) para medir o contraste relativo entre o mês de maior e o de menor precipitação de cada região. Quanto maior o coeficiente, mais intensa é a diferença entre a estação chuvosa e a estação seca. O Centro-Oeste apresentou a maior amplitude sazonal, com 92,05%, enquanto o Sul registrou a menor, com 29,22%.
- A Sazonalidade na Região Norte: Na Região Norte, o índice sazonal alcança seu valor máximo em março, com 190,70, e o mínimo em agosto, com 26,51. O Coeficiente de Amplitude Sazonal é de 75,59%. Os maiores índices concentram-se entre dezembro e maio, enquanto o período de junho a setembro apresenta os menores valores.
- A Sazonalidade na Região Centro-Oeste: O Centro-Oeste apresenta a maior sazonalidade entre as regiões brasileiras. O índice máximo ocorre em janeiro, com 207,03, e o mínimo em julho, com apenas 8,57, resultando em CAS de 92,05%. A estação chuvosa ganha força a partir de outubro, enquanto a redução dos índices ocorre rapidamente depois de março.
- A Sazonalidade na Região Sudeste: No Sudeste, o maior índice sazonal ocorre em janeiro, com 207,50, e o menor em julho, com 21,71. O CAS de 81,06% demonstra forte contraste entre o verão chuvoso e o inverno seco. Os índices permanecem mais elevados entre outubro e março e atingem os menores níveis durante os meses de inverno.
- A Sazonalidade na Região Sul: A Região Sul apresenta a menor amplitude sazonal da amostra. O índice máximo é registrado em outubro, com 134,03, e o mínimo em agosto, com 73,41, produzindo CAS de 29,22%. A menor diferença entre os meses não significa ausência de riscos, pois eventos extremos de precipitação podem ocorrer em diferentes épocas do ano.
- A Sazonalidade na Região Nordeste: No Nordeste, o índice sazonal atinge o máximo em março, com 184,79, e o mínimo em setembro, com 31,27. O CAS é de 71,06%. A precipitação diminui depois do primeiro trimestre, alcança seu ponto mais baixo em setembro e volta a crescer nos últimos meses do ano.
- A Estimação das Tendências Anuais: As taxas médias anuais de crescimento foram calculadas por regressões log-lineares que utilizam todas as observações anuais entre 2003 e 2024. O procedimento oferece uma leitura mais abrangente da trajetória regional do que uma comparação baseada somente nos anos inicial e final. O estudo também apresenta os coeficientes de determinação e os p-valores das regressões, destacando que a força estatística das tendências varia entre as regiões.
- A Tendência Pluviométrica da Região Norte: A média mensal dessazonalizada diminuiu de 194,70 mm por mês, em 2003, para 120,60 mm por mês, em 2024. A redução acumulada foi de 38,06%, com taxa média estimada de −1,91% ao ano. A regressão apresentou p-valor inferior a 0,001, constituindo uma das evidências mais claras de trajetória descendente identificadas no estudo.
- A Tendência Pluviométrica da Região Centro-Oeste: No Centro-Oeste, a média passou de 107,70 mm por mês, em 2003, para 79,29 mm por mês, em 2024, representando redução de 26,38%. A taxa média estimada foi de −1,50% ao ano. A trajetória indica crescimento até aproximadamente 2013–2014 e redução posterior, embora a evidência estatística tenha ficado próxima do limite convencional de significância.
- A Tendência Pluviométrica da Região Sudeste: No Sudeste, a média caiu de 94,53 para 80,41 mm por mês entre 2003 e 2024, redução acumulada de 14,94%. A taxa estimada foi de −0,64% ao ano, mas a regressão não apresentou evidência estatística forte de uma tendência monotônica. O resultado demonstra que crises hídricas severas podem ocorrer mesmo quando a trajetória média de longo prazo permanece incerta.
- A Tendência Pluviométrica da Região Sul: A Região Sul foi a única a apresentar taxa anual positiva. A média aumentou de 105,30 mm por mês, em 2003, para 149,50 mm por mês, em 2024, variação acumulada de 41,98%. A taxa estimada foi de +0,98% ao ano. Entretanto, o resultado deve ser interpretado como indicativo, devido à elevada variabilidade entre os anos e à influência dos valores extremos observados no final da série.
- A Tendência Pluviométrica da Região Nordeste: No Nordeste, a média diminuiu de 80,13 mm por mês, em 2003, para 56,27 mm por mês, em 2024. A redução acumulada foi de 29,78%, com taxa média estimada de −1,89% ao ano. O p-valor de 0,004 indica uma das trajetórias descendentes mais claras da amostra, ao lado da Região Norte.
- O Filtro Hodrick–Prescott: O filtro Hodrick–Prescott foi empregado para separar as séries dessazonalizadas em uma tendência suavizada e um componente cíclico. Valores positivos do componente cíclico indicam precipitação acima da trajetória suavizada, enquanto valores negativos representam precipitação abaixo dessa trajetória. O estudo ressalta que esses movimentos são estatísticos e não devem ser automaticamente classificados como períodos de cheia ou seca.
- A Identificação das Fases pelo Algoritmo de Bry–Boschan: O algoritmo de Bry–Boschan foi utilizado para localizar picos, vales e pontos de virada nas séries mensais. As fases ascendentes correspondem ao movimento de um vale para um pico, enquanto as fases descendentes representam o deslocamento de um pico para um vale. Os resultados mostram alternância frequente entre essas fases, com duração e intensidade diferentes em cada região.
- A Influência da Variabilidade Oceânico-Atmosférica: A discussão relaciona os padrões observados à atuação de sistemas como a Zona de Convergência Intertropical, o sistema de monção da América do Sul, a Zona de Convergência do Atlântico Sul, as frentes frias, os ciclones extratropicais e o El Niño–Oscilação Sul. Esses fenômenos afetam as regiões de maneiras distintas e ajudam a explicar parte da variabilidade observada entre os anos.
- A Reciclagem de Umidade e as Mudanças no Uso da Terra: O estudo discute o papel da evapotranspiração da floresta amazônica e do transporte continental de vapor na manutenção das chuvas na Amazônia e no centro-sul da América do Sul. Mudanças na cobertura vegetal podem modificar a evapotranspiração, o balanço de energia e a duração da estação chuvosa. Os autores, entretanto, não atribuem as tendências encontradas exclusivamente ao desmatamento ou a qualquer outro mecanismo isolado.
- Os Extremos Climáticos de 2023 e 2024: O final da amostra coincide com o forte El Niño de 2023–2024, com a seca amazônica de 2023 e com as chuvas extremas registradas no Rio Grande do Sul em 2024. Em Caxias do Sul, por exemplo, o acumulado de maio de 2024 chegou a 845,3 milímetros, diante de uma normal climatológica de 131,4 milímetros. O estudo alerta que esses eventos podem influenciar o final das séries e não devem ser extrapolados automaticamente como tendências permanentes.
- As Implicações para o Planejamento Regional: Os resultados indicam a necessidade de estratégias diferenciadas. Norte e Nordeste demandam atenção à segurança hídrica, à navegação, à geração de energia e à adaptação produtiva. Centro-Oeste e Sudeste exigem planejamento do calendário agrícola, armazenamento de água e integração entre bacias. O Sul necessita de infraestrutura preparada para chuvas intensas, inundações e movimentos de massa, apesar de apresentar menor sazonalidade média.
- As Limitações da Evidência: O trabalho reconhece limitações associadas à agregação das informações por macrorregião, ao período relativamente curto para inferências climatológicas, à sensibilidade do filtro Hodrick–Prescott nas extremidades da amostra e à ausência de variáveis explicativas oceânicas, atmosféricas e de cobertura do solo. As médias regionais também não representam diretamente a duração, a intensidade ou a concentração espacial dos eventos extremos.
- As Considerações Finais: O estudo conclui que o comportamento pluviométrico brasileiro é marcado por forte heterogeneidade territorial. As tendências suavizadas apresentam direção negativa no Norte, Centro-Oeste, Sudeste e Nordeste e direção positiva no Sul, mas a força estatística dos resultados não é igual em todas as regiões. Os achados oferecem uma base comparável para o planejamento regional, sem constituírem um exercício formal de atribuição climática ou demonstrarem causalidade exclusiva.
- A Agenda para Novas Pesquisas: Os autores recomendam ampliar a análise para estações meteorológicas, bacias hidrográficas e unidades territoriais menores, incorporar índices oceânicos e atmosféricos, comparar dados observacionais e de satélite e testar a associação entre precipitação e alterações na cobertura vegetal. Essas extensões podem aprofundar a compreensão das tendências e dos ciclos regionais identificados.
Palavras-chave: Índices pluviométricos. Sazonalidade. Séries temporais. Regiões brasileiras. Mudança do uso da terra.
Daniel Kiyoyudi Komesu [1]
Mario Antonio Margarido [2]
[1] Especialista em Data Science e Analytics. Partner Data Science da Pezco Economics. E-mail: danielkomesu@pezco.com.br
[2] Ph.D. em Economia Aplicada. Senior Partner e Econometrics Leader da Pezco Economics e pesquisador do PSP Hub Estudos em Infraestrutura e Urbanismo. E-mail: mario.margarido@pezco.com.br