Este working paper apresenta uma análise econométrica dos impactos dos riscos climáticos sobre os desembolsos de crédito do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) nos biomas Amazônia, Cerrado e Caatinga. Utilizando uma série histórica municipal que integra dados de uso e cobertura da terra do MapBiomas, informações climáticas da NASA POWER e registros de crédito do BNDES, o estudo avalia como secas, anomalias de precipitação e condições de estresse hídrico influenciam a contratação de recursos financeiros em diferentes regiões do Brasil.
O estudo detalha:
- Os Impactos dos Riscos Climáticos sobre o Crédito do BNDES: Uma análise da forma como eventos climáticos extremos alteram a demanda e a oferta de crédito, influenciando investimentos, linhas emergenciais, refinanciamentos e políticas de financiamento voltadas à adaptação climática. O estudo demonstra que os riscos climáticos afetam tanto a capacidade de pagamento dos tomadores quanto os critérios utilizados pelas instituições financeiras para a concessão de recursos.
- A Base de Dados Climática, Ambiental e Financeira: Um levantamento que integra informações municipais de transição do uso do solo do MapBiomas, dados de precipitação e temperatura da NASA POWER e registros de desembolsos do BNDES. As bases foram harmonizadas geograficamente e consolidadas em frequência anual para permitir a comparação entre os municípios localizados nos biomas Amazônia, Cerrado e Caatinga.
- A Aplicação do Índice SPEI-12: Uma discussão metodológica sobre o uso do Índice de Precipitação Evapotranspiração Padronizado com janela de 12 meses, utilizado para identificar secas hidrológicas e choques hídricos de longo prazo. Diferentemente de indicadores baseados exclusivamente na precipitação, o SPEI considera também a evapotranspiração potencial, permitindo avaliar de forma mais precisa o déficit ou o superávit hídrico de cada região.
- A Metodologia Econométrica: Uma análise baseada em modelos de dados em painel com efeitos fixos e distribuição de Poisson, utilizada para controlar características específicas de cada município e choques macroeconômicos comuns ao longo do tempo. O modelo também considera os efeitos contemporâneos e defasados das anomalias climáticas sobre os valores contratados junto ao BNDES.
- Os Resultados para o Bioma Caatinga: O estudo identifica que anomalias positivas de chuva produzem um impacto imediato, expressivo e estatisticamente significativo sobre o valor contratado na Caatinga. Esse resultado demonstra a elevada sensibilidade econômica da região semiárida à disponibilidade de água, indicando que períodos de maior segurança hídrica podem destravar rapidamente investimentos e contratações de crédito.
- Os Resultados para o Bioma Amazônia: Na Amazônia, o impacto das condições climáticas sobre os desembolsos ocorre de forma defasada. Uma melhora no regime de chuvas tende a produzir aumento no valor contratado no ano seguinte, refletindo ciclos mais longos de planejamento, execução de projetos, logística regional e liberação de grandes operações de crédito.
- Os Resultados para o Bioma Cerrado: O Cerrado apresentou neutralidade estatística no curto prazo, pois as oscilações das anomalias de chuva não demonstraram impacto significativo sobre o valor contratado. O estudo sugere que o uso de tecnologias produtivas, como sistemas de irrigação, pode funcionar temporariamente como um mecanismo de proteção contra variações pluviométricas, embora não elimine os riscos de estresse hídrico de longo prazo.
- Os Projetos Sob Estresse Hídrico: Um levantamento da vulnerabilidade da carteira de projetos financiados pelo BNDES, identificando 89 projetos sob estresse hídrico no Cerrado, 25 na Caatinga e 21 na Amazônia. Os resultados evidenciam riscos para projetos agroindustriais, sistemas de abastecimento, geração de energia, infraestrutura logística, hidrovias, rodovias e cadeias produtivas dependentes da estabilidade climática.
- A Falsa Normalidade Climática: O estudo identifica medianas do SPEI-12 próximas de -1,0 nos três biomas, situação classificada como próxima da normalidade, mas localizada no limite das condições de seca moderada. Os autores denominam esse cenário de “falsa normalidade”, pois o balanço hídrico acumulado já indica meses consecutivos de déficit de precipitação e aumento da evapotranspiração.
- As Implicações para as Políticas de Crédito: O trabalho conclui que o BNDES deve atuar de forma contracíclica e estratégica diante dos riscos climáticos, fortalecendo mecanismos como o Fundo Clima, as Linhas Verdes, os critérios Ambientais, Sociais e de Governança (ASG) e a integração de dados geográficos com o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC). Essas medidas podem ampliar a resiliência ambiental e financeira dos projetos financiados.
Palavras-chave: Crédito de Fomento. Riscos Climáticos. SPEI-12. Dados em Painel. Biomas Brasileiros.
Mario Antonio Margarido [1]
Rogerio Acca [2]
[1] Pós-Doutor em Economia (EESP/FGV), Doutor em Economia Aplicada (ESALQ/USP), Mestre em Economia de Empresas (EAESP/FGV) e Economista (FEA/USP). Senior Partner e Líder de Econometria da Pezco Economics e Pesquisador do PSP Hub. Email: mario.margarido@pezco.com.br
[2] Doutor (PhD) em Políticas Públicas pela Cornell University, Mestre em Sociologia e Cientista Social pela FFLCH/USP. Consultor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e Consultor Associado da Fractal Assessoria Desenvolvimento de Negócios. Email: ra239@cornell.edu